RPG e Educação
Jogos para promover aprendizagem
Você já pensou em transformar sua aula de História em uma aventura épica, onde seus alunos assumem diferentes papéis de personagens do Brasil Colonial e enfrentam dilemas ancestrais?
Em 1992 foi lançado o primeiro RPG (Role-Playing Game) com temática histórico-brasileira - O Desafio dos Bandeirantes criado por Carlos Klimick, Luiz Eduardo Ricon e Flávio Andrade. Um Brasil Colonial no século VII em uma ambientação de fantasia histórica.
No inicio dos anos 2000 uma série de RPG históricos foram lançados pela Devir usando uma simplificação do GURPS, chamado Mini GURPS. Destacam-se: Entradas e Bandeirantes, O descobrimento do Brasil, O resgate de Retirantes e Quilombo dos palmares.
Destaca-se que em 2017 a Devir lançou A Bandeira do Elefante e da Arara – Livro de Interpretação de Papéis baseado no mundo de fantasia criado por Christopher Kastensmidt. O RPG é uma adaptação dos romances de espada e feitiçaria que contam as aventuras de Gerard Van Oost e Oludara, no Brasil do século XVI.
Em 2023, Tate Falconi cria Parnahyba: A Lenda da Vila Segredo. Um RPG inspirado na historia de Santana de Parnaíba/SP.
Logo, são inúmeros RPGs que procuram servir de ambientação para criação de diferentes narrativas épicas. Essa também é a proposta do RPG A Saga de Gravatahy que une mitologias, culturas e história local da cidade de Gravataí/RS para criar uma experiência imaginária e interativa em uma terra fantástica no sul brasileiro em torno do século XVIII. Basicamente o objetivo é o entretenimento cultural, mas também pode servir como material educacional interdisciplinar, propiciando uma aprendizagem afetiva e significativa.
Em todos estes projetos existem duas perspectivas para serem destacadas. A primeira é quanto a criação de um mundo ficcional, um lugar com suas regras próprias estabelecendo possibilidades de eventos, relações e mitologias próprias e consequentemente conflitos. Também são olhares e representações arquetípicas de personagens. E a outra a possibilidade de criar historias abertas, interativas que promovam uma sensação de agência, pertencimento daquele que joga/interpreta/vivencia histórias em tornos dos conflitos dos personagens. Não é uma única historia fechada, mas uma possibilidade de infinitas historias que podem ser contadas nestes mundos.
Então, por que usar RPG na educação? Justamente porque o RPG é um jogo que permite criar histórias nestes diferentes mundos imaginários. Também pode ser usado como uma ferramenta pedagógica. Ele estimula a criatividade, o trabalho em equipe, a resolução de problemas, a empatia e o pensamento crítico. Com base em estudos de pesquisadores como Piaget, Prensky, Blikstein e Huizinga, podemos dizer que a ludicidade não apenas motiva, mas transforma o aprendizado em experiência significativa. No RPG, os aprendizes não apenas ouvem sobre o passado — eles vivem o passado, negociam, se emocionam e tomam decisões. Deixam de ser ouvintes da história e passam a ser protagonistas nestas narrativas cocriadas com os pares, incluindo os educadores.
Assim, A Saga de Gravatahy inspira-se na memória da cidade, fatos e figuras históricas e a mitologia dos ancestrais - carijós, guaranis, africanos e açorianos. Felizmente em 2024 fomos contemplados com Edital Difusão Cultural apoiado pela Lei Aldir Blanc (Ministério da Cultura) e da Prefeitura Municipal de Gravataí . Historiadores e educadores acompanharam, revisaram e contribuíram para criação de uma obra decolonial, atualizada e que contempla a riqueza da diversidade cultural, permitindo a desconstrução de estereótipos.
O jogo mistura elementos históricos e fictícios para criar um universo fantástico único, enraizado nas tradições dos povos carijó, guarani, africanos e açorianos que habitaram a região. Os jogadores podem interpretar personagens conectados com a terra, com o sobrenatural e o Sangue Celestial — um poder ancestral que circula no sangue dos descentes de Caribé, um líder indígena filho de uma entidade divina alada que para os jesuítas era um anjo. É uma oportunidade, de forma decolonial e crítica, revisitar a história do sul brasileiro a partir de outras perspectivas.
Aplicações práticas em sala de aula
No site do projeto será publicado gratuitamente O Guia do Educador, criado pelo Prof. Ms. Luciano da Silva Rodrigues que apresentará propostas concretas para integrar o jogo ao currículo da educação básica. Aqui estão apenas alguns exemplos:
História: Os alunos recriam eventos históricos assumindo papéis de diferentes povos no Brasil colonial, compreendendo melhor temas como colonização, resistência e multiculturalismo.
Português e Literatura: A escrita das histórias dos personagens e aventuras desenvolve a produção textual, leitura crítica e interpretação de textos.
Arte: Confeccionar cenários, mapas, personagens, músicas, danças ampliam o repertório estético e cultural dos alunos.
Ciências e Geografia: Missões que abordam sustentabilidade, cartografia, biomas e ecologia. Um simbólico repleto de sustentabilidade e preservação ambiental.
Como começar?
Mesmo que você nunca tenha jogado RPG, o material é baseado em um sistema simples, aberto e gratuito, também criado (remixado) por mim chamado SAGEN (Sistema Aberto de GEração de Narrativas), com regras flexíveis e foco na narrativa. Além disso, o Guia do Educador, oferecerá sugestões de uso e atividades adaptáveis às turmas do ensino fundamental e médio. Lembrando que ao usar o RPG como recurso didático, o professor transforma a sala de aula em um espaço de descobertas, cocriação e pertencimento.
O site do projeto A Saga de Gravatahy será lançado dia 31 de maio e em junho tanto o sistema de RPG SAGEN, o livro sobre Gravatahy e o Guia do Educador estarão disponibilizados em PDF gratuitamente. Até o final do ano também serão disponibilizados na forma de áudio livro e braile tendo em vista à acessibilidade.
E para cultivar seus mundos?
que histórias, personalidades, mitologias existem na sua cidade que possam embasar a criação de mundo ficcional?
que outras histórias podem ser contados a partir de outros olhares? de outras ancestralidades? histórias que não apagam o outro, mas somam?
que estética pode ser produzida com as histórias ambientadas neste mundo? que afetos podem ser criados? que dores os protagonistas poderão materializar em seus conflitos?
Acompanhe o projeto, se você precisa pensar o uso de RPG na sala de aula, na criação de mundos imaginários e narrativas interativas nos jogos analógicos, nos jogos digitais, na literatura e na produção audiovisual. Precisa desenvolver estas experiências (digitais ou não) só me chamar!
